Por que o intestino trava ao viajar? Pode tomar remédio? Veja o que fazer contra a prisão de ventre
Viagem e quebra de rotina até poderiam ser sinônimos. Afinal, quando a temporada de férias chega, fica difícil manter os mesmos horários, ainda mais quando se está fora de casa. Contudo, enquanto a mente espairece e curte a mudança de ares, o intestino pode sofrer com tanta novidade e travar. É a famosa prisão de ventre.
Dados epidemiológicos recentes, publicados em um artigo sobre a condição no Medscape, mostram que a constipação atinge cerca de 12% da população mundial, sendo mais frequente em mulheres e idosos. Nesses grupos, a mudança na alimentação é um dos fatores que explica a razão pela qual o intestino funciona de forma diferente quando estamos viajando.
Antes de mais nada, é importante entender que cada pessoa tem um ritmo intestinal. Segundo Perla Schulz, gastroenterologista da Rede de Hospitais São Camilo, a frequência de evacuações pode variar muito. Usar o banheiro três vezes ao dia ou passar dois dias seguidos sem evacuar podem representar cenários de “normalidade”, sem quaisquer prejuízos à saúde, segundo a especialista.
“O que precisa ser observado são mudanças no padrão”, ensina. Perla informa que vale ficar de olho, por exemplo, em alterações na consistência das fezes, na presença de dor ou sangue na evacuação e se há necessidade de fazer muito esforço.
Mas por que o intestino ‘prende’ durante viagens?
Sair da rotina é o principal gatilho. Horários irregulares, alimentação diferente, pressa para aproveitar o dia, menos tempo reservado ao banheiro e até o simples fato de estar em outro ambiente: tudo isso pode interferir diretamente no funcionamento intestinal.
Na prática, o intestino não “trava” por acaso. A constipação acaba sendo a resposta a um conjunto de mudanças que chegam juntas.
Débora Poli, gastroenterologista no Hospital Sírio-Libanês e membro titular do Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal do Brasil (GEDIIB), explica que manter um padrão intestinal demanda certos cuidados, como manter horários regulares, ingerir fibras de forma adequada e seguir uma alimentação equilibrada.
Como regularizar o intestino na viagem
Debora conta que algumas medidas simples ajudam a aliviar o quadro. “A primeira delas é adotar uma alimentação rica em fibras, com farelos, aveia, pães e massas integrais, grãos, verduras, legumes e frutas. Sempre que o intestino estiver mais preso, é importante priorizar esses alimentos”, reforça.
Além disso, ela ressalta que a hidratação adequada é essencial para evitar que as fezes fiquem ressecadas. “Não é necessário beber grandes quantidades de água. Basta manter-se bem hidratado ao longo do dia para que as fezes permaneçam umedecidas”, orienta.
Outra recomendação é a prática de atividade física, já que, segundo a especialista, a falta de movimento pode piorar a constipação. Durante as férias, é possível investir em atividades mais leves, como caminhadas. Se estiver em hotel com academia, alguns minutos na esteira já ajudam.
Mais uma possibilidade para tirar o intestino da inércia é recorrer à suplementação de fibras. “É útil quando não conseguimos manter uma dieta adequada, principalmente em viagens”, diz.
Usar laxante: pode ou não?
Alguns estudos destacam tratamentos com laxantes como os mais comuns na prática médica. Entretanto, Débora alerta que o uso deve ocorrer com o apoio de um especialista, ainda mais quando não se trata de uma doença crônica.
“Cada tipo de laxante tem seus benefícios e possíveis efeitos colaterais. É importante conhecer essas características para escolher a opção mais adequada para cada caso”, explica.
Os tipos de laxantes citados pela especialista são:
- Emolientes, como o óleo mineral;
- Osmóticos, que puxam água para o intestino e deixam as fezes mais úmidas;
- Irritativos, que estimulam a secreção de substâncias que ativam o funcionamento intestinal.
Ela conta que, geralmente, os tratamentos começam com laxantes mais leves e avançam para opções mais potentes, apenas quando necessário. “Essa escolha varia muito de pessoa para pessoa e deve ser feita com acompanhamento e orientação individualizada”, reforça.
É possível prevenir a constipação?
Para quem planeja viajar por muito tempo, Débora aconselha que a pessoa leve consigo alguns itens capazes de ajudar na manutenção dos hábitos ou aliviar a constipação.
“Não há nada que precise ser feito de forma preventiva antes da viagem. O ideal é apenas se organizar e montar uma ‘farmacinha’ com remédios que podem ajudar, suplementos de fibras e até alimentos ricos em fibra que podem ser transportados com facilidade”, explica.
Quando buscar ajuda
Nem toda alteração intestinal é preocupante. “Em situações excepcionais, como viagens, mudanças bruscas de rotina, domicílio ou emprego e períodos de estresse, é comum haver alterações no funcionamento do intestino. Nesses casos, geralmente não há motivo para maior preocupação”, explica a gastroenterologista no Hospital Sírio-Libanês.
Porém, quando não for identificada nenhuma causa aparente, ela explica que alguns sinais podem indicar a necessidade de avaliação. São elas:
- Dor intensa ou desconforto;
- Sangramento ao evacuar;
- Anemia;
- Perda de peso;
- Fraqueza;
- Persistência dos sintomas.
“Qualquer situação em que a constipação interfere na qualidade de vida já é motivo suficiente para procurar um médico”, finaliza a médica.
Fonte: Estadão – acesse aqui